Uma nuvem de fumo que desvanece
Alerta-nos para o perigo eminente
O final da ronda, por muito que pendente
Nunca dá a cada um, o que cada um merece
Não deixando rasto de nenhum predicado
Como o ponto final num texto de Saramago
Com a mesma impetuosidade de um suspiro vago
Grito de última estância de um coração injuriado
Negando qualquer vislumbre de presunção
Afasto de ti o holofote da responsabilidade
Que não olha a credo ou a idade
Mas sim ao fundo da maior afirmação
Quando pensamos que conhecemos alguém
Alguém nos mostra que não conhecemos ninguém
Nem a nós mesmos.
Por vezes, mataria
Faria da caneta espada de samurai
Rogaria o mais alto possível
Elevando o pouco que resta de masculinidade
Nada típico desta tenra idade
Que não passa de uma fase tangível
Capaz de se fazer sentir num passeio à beira rio
Uma praia inventada por essa mesma imaginação
Onde ficariam esquecidas as nossas pegadas
Como letras de cartas de qualquer coração
Que com versos disfarçados de risadas
Enchem folhas e folhas em vão
Enchem folhas e folhas, com pequenos nadas.
Ainda me lembro como se estivesses à minha frente.
A tua pele clara e suave, o teu toque ao de leve
O teu apaziguante acariciar
As rendas das calcinhas de branca, neve
E um especial je ne sais pas
Que não sei porquê, me faz sorrir.
As pernas de pele macia que convida ao toque
As coxas que iniciam o que não deve ser iniciado
Despertados de instintos famintos, à espera de um mote
Para soltarem o Bruto, abandonado
A cintura que encaixa num braço
Com força e firmeza no trato
As costas onde a mão desliza, erro crasso
Quando se desce de mais para o sítio exacto
Os ombros de mulher e cara de criança
O sorriso inocente que esconde tanto…
A paixão afastada de qualquer mudança
Que sobre a forma de uma lança
Tapa a história com amor e um manto
A vontade incessante de perpetuar
Alongar ao máximo o suspense
E deixar de lado, deixar ao canto
Qualquer dúvida de romance
Gostava de escrever o meu testamento.
Voltar para mais um dia à porta da campa
Voltar numa outra forma, noutro conhecimento
Voltar e reescrever a escritura santa.
Quero escrever o guião do Mundo
Onde as personagens são criadas à minha ideia
Criadas ao meu gosto
Onde todos fazem aquilo a que não estou disposto
Onde é mais do que sangue, o que lhes corre em cada veia
Onde tudo é apagado e reinventado
Num segundo.
Quero ter a caneta do Infinito
A caneta com a tinta abençoada
Que torna tudo aquilo que é escrito
Numa linha que diz tudo
Sem ser escrever nada.
Dou um beijo leve no teu ombro, enquanto uma alça cai
Com a mesma perícia numa mão, que um artista circense
num jogo de malabares na ponta dos dedos, o soutien abre.
Tenho perante mim os seios mais belos que já vi,
o expoente máximo da arquitectura divina
Clara amostra daquilo que o corpo de uma Deusa deve ser.
O tamanho certo, não grande…
O tamanho certo, muito menos pequeno…
O tamanho certo, para encaixar na minha mão.
Um amor vitorioso, doce como o suco vaginal das musas de outros tempos
Depois de um vasto leque de putas, disfarçadas, em conventos
Que me levaram a viajar até casa do Satanás
Pelo caminho encontrei demasiadas pessoas
Umas más, outras apenas, menos boas
Mas todas, mesmo todas, com um fundo em comum
O fundo da impureza e da traição
O fundo da certeza que o coração
É demasiado grande, apenas para um
Também eu fui certo, em certas alturas
Em todas as alturas de falso vigor
Tão vigorosas, como doenças sem curas
Tapo enganosas, como vidas sem amor
Ao chegar a casa do Satã
Ouvi uma voz, também ela vigorosa, e sã
Que me perguntou o que queria
“Quero esclarecer as minhas dúvidas, tirar tudo a limpo,
perguntar aos demónios, o que é isto que sinto,
que me deixa assim, sem reacção.”
A voz fez-se sentir de novo quando riu e gritou
“É o sentimento de quem sabe que já amou
e que sabe que nunca esqueceu essa paixão.”
Saí então a correr, não muito veloz, mas tanto quanto podia
Para puder voltar para quem me enche de certeza
Que finalmente, encontrei a minha princesa
Que ficará comigo, para sempre e mais um dia.
Se ninguém é ninguém para dizer o que é certo ou errado
Prefiro ser quem fica sentado, com tudo a passar ao lado
Do que ser mais uma marioneta, que no meio desta peça
Anda um pouco sem sentido, um pouco atarantado
Porque em suma não é nada disso que ponho em questão
Porque nada acontece por acaso
Mas se por acaso algo acontece
Não me aquece nem arrefece
Pois tudo o que acontece tem um prazo
Na brincadeira do diz que disse
há muitas coisas que não são ditas
Porque por trás de todas as intenções Não deixam de estar cabrões
Que iludem com as palavras mais bonitas.
A máscara branca, cor do anonimato
Um grito de alerta para uma população
Controlada pela ilusão
Dos média e da televisão
Que deixou o seu orgulho fraco…
Escondendo os escândalos
Destorcendo a realidade
Quando na verdade
Essa população vive uma história
Essa população que não sabe
Chegou a hora, cara População
Este é o nosso momento
De levantar a nossa voz, dizer que o Povo somos nós
E que chega de entretenimento
Chega de poeira nos olhos
A população já não está atordoada
A minha máscara invisível é Branca
E a fase um, está iniciada.
Quem é realmente mau
Quem será o verdadeiro vilão?
Será aquele que sem querer
É levado a roubar para poder comer
Ou quem se alimenta de toda a nação?
O pai era alcoólico
A mãe obrigava-o a mendigar
Hoje em dia é governante
E sentindo-se importante
Usa o seu poder para se vingar
Um país que cresceu a ferros
Com a liberdade que nunca foi sua
E dá por si a ser habitado
Por um povo já bem-educado
Ou simplesmente habituado
A calar e não sair à rua
O país cresceu e agora faz-se ouvir
Agora revela os crimes até agora escondidos
Porque esses cortes não foram esquecidos
Embora mais de metade andem perdidos
A outra parte quer direito a sorrir
Eu estou nessa pequena parte
A parte sem medo de sonhar
Porque se o futuro somos nós
Temos de usar a nossa voz
Antes que as opiniões também se comecem a pagar
Acordei com uma vontade incontrolável de gritar
Aliviar-me desta pressão invisível que está no ar
Que ninguém sabe de onde vem
Porque vem de todo o mundo, de mim também
Que fazendo o mal o rotulo como sendo bem
Fazendo valer a vontade de quem?
De alguém…
Mesmo não sendo de onde seria de esperar
Mesmo estando escondidos atrás do betão que têm à cintura
Mesmo a navegar nos oceanos das intrigas
Mesmo não sendo mais que uma ganza a rodar raparigas
Tenham cuidado que a água mole ainda fura
O retrato manchado de uma sociedade desfeita
Que mesmo ainda feita, está-se a desfazer
Como a tripulação de piratas que acaba por morrer
Mesmo com um tesouro a bordo.
Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos…
É o internacionalismo monetário!
OUVIR MÚSICA
FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu ‘attachi-case’ sai a solução!
FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI
Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem ‘on the rocks’ do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!
FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico ‘hara-quiri’
FMI Panegírico, pro-lírico daqui
Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!
FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI …
Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt’e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D’ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d’olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és ‘Sepuldra’ tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three
FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI …
Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, ‘amanda’-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa… Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem… E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do… que dia é hoje, ah?
FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI …
Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p’ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, ‘terneio’ Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe…
Mãe, eu quero ficar sozinho… Mãe, não quero pensar mais… Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe… Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar…
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.
Sem palavras e sem acções
Sem pensamentos e sem nada
Porque se tudo na vida é feito de um pequeno nada
O meu é demasiado grande
Consegue ser tudo na importância que lhe é dada
Consegue ser modelo de paixões
E consegue brilhar, mesmo de luz apagada
Consegue dar motivo a algo mais
Consegue encontrar caminho onde não existia
Consegue fazer frente a ondas e vendavais
Consegue ser o ardente fogo que queima pinhais
Consegue ensinar tanto, e tanto que eu não sabia
Merece ser mais que destacado
Merece ser estudado, podem tirar apontamentos
Da mesma forma que eu tiro pequenos momentos
Que me fazem sonhar acordado
E mesmo não estando fisicamente acompanhado
Sei que tudo isto não passa de uma correria
Até poder ficar contigo a meu lado
Para sempre, e mais um dia
Esqueceste-te do que és
Do que és feito
Esqueceste-te de ouvir
O lado esquerdo do peito
Esqueceste-te do que és
Deixaste para trás o passado que não era teu
O passado que era só seu
O passado, do que passa ao lado
Ou lembrança de um esquecido embriagado
Esqueceste-te do que és
Esqueceste-te ainda do maior objectivo
Trocaste-o por um lugar cativo
Em frente do sentimento corrosivo
Com um sinal de perigo para te manter afastado
Agora o teu presente afastou-se do passado
Esqueceste-te do que és
És apenas um, entres os meros espectadores
Sentados a ver um conto de fadas a cores
Manipulados constantemente pelo grupo de senhores
Onde os teus sonhos são rasgados, mal tratados
Abandonados, depois de violados
Enquanto são usados
Pelos senhores para limparem os pés
Esqueceste-te do que és
Dá um sorriso ao teu Diabo
Ele está descansado
Trabalho bem acabado
Objectivo traçado
E o resultado?
Deixaste para trás o tal passado
Agora é hora
Mochila às costas
Uma sandes das que tu gostas
E vai embora
Enfrenta ventos e marés
Enfrenta montanhas e monstros assustadores
Enfrenta-te a ti e aos senhores
E lembra-te, de Quem tu és.
Já não há criminosos.
Criminosos de carros clássicos, pretos
Chapéu preto, redondo, sempre ajustado com dois dedos
Dois dedos da mão que segura uma metralhadora, pois claro
Fazem falta vilões, e não figurantes.
Não quero que me apontem um corta-unhas
Não quero que venham de calças largas
Não quero que me assaltem a mim.
Quero que assaltem bancos
De fato e gravata
Como no tempo dos bons malandros.
Quero um criminoso com princípios
Um criminoso que se consiga apaixonar
Um homem mau, mudado pelo amor.
Não quero crianças com armas na mão
Quero poder olhar à volta e dizer
Isto sim, é um bom policial real.
Prefiro ter medo
Saber que não é garantida
Saber que posso perder a segunda vida
Mas saber, que não tão cedo
Pelo menos assim espero
Mas a vida não é feita do que quero
Se assim fosse
Sofreria de felicidade precoce
Com um dia-a-dia nada severo
Diferente daquele que teima em correr
Só por si ou só, para me foder?
Como o autocarro da 24 de Julho
Que me deixou num estado igual ao de um mergulho
Uma pessoa molhada e abandonada
No meio da madrugada
Depois de uma noite mal passada
Onde fez amor com entulho
Mas sendo improprio como o Bairro onde habita
Mesmo sem ter lá casa, lá dormita
Entre as ruas de quem mija e de quem vomita
Porque o Bairro Alto é bom
É bom pois, acredita.
Acredita na confição de um agarrado
Agarra-se pois então ao fado
Que sempre esteve presente no passado
E que ainda hoje estando ao meu lado
Me deixa um pouco…
Um tanto ou quanto atarantado
Como na música dos Azeitonas
Porque entre a caçada na noite das conas
Ajuda-me a não ir lá saber que estou apaixonado
E negando aquilo que antes defendia
Defendo agora mais que tudo o amor
Porque dele próprio vem o maior terro
De perder quem eu mais queria
E se queria, agora quero ainda mais
Poder ver uma criança
Que diga, depois de sair da tua pança
‘Tenho orgulho dos meus pais’
Na minha cidade havia um túnel de vento
Nesse túnel eu chegava a qualquer lado
É retrato simples do meu passado
Com um toque, mesmo que ao de leve, de talento
Era um túnel a que não havia nada igual
Nele voavam coisas, lembranças, pessoas
Memórias de coisas más e coisas boas
Letras soltas de qualquer intelectual
Uma forma de vida por si só
Uma crença, não politica nem religiosa
Apena uma mente inconsciente e perigosa
Que piora, por ‘snobbaria’ o entendimento
E ao percorrendo-o, encontro o céu na terra
Um anjo sem asas que não toca harpa
Um corpo sublime que me mata
Enquanto a sociedade me enterra
Mas na altura mais importante
Essa altura que não é mais que um momento
Em que eu me posso deitar
E peço ao mundo para voltar a sonhar
Com o meu túnel de vento
Sonho voar montado num dragão
Atravessar o mundo com fúria Infernal
A consumir toda a alma universal
E a arder, desfaço a vida na minha mão
Enquanto me escondo atrás do fumo
O Irlandês continua a ser uma inspiração
Que por falar verdade, que não o são
Me faz munir-me de amor, e sumo…
Sumo, corro o mundo um pouco desnorteado
Até que, com a minha princesa ao colo, monto o dragão
Armados com sonhos e paixão
Tornando real este conto encantado
Sinto a rotina a pesar mais e mais em cima
Os passos habituais tornam-se demais, demasiados
A rotina que me amotina
E torna os passos passados mais pesados
E ao olhar sobre o ombro, não vejo palácios erguidos
Vejo folhas rasgadas com sonhos ainda esquecidos
O calor da cadeira prende-me a ela e não me deixa viver
De que me serviriam as pernas se não pudesse correr?
De que servia a liberdade se não fosse para aproveitar?
De que serve viver se não conseguires amar?
De que serve amar se não te sentes satisfeito?
Se sempre que vês um espelho tens um aperto no peito
Saberes que estas com alguém que merece tudo o que tens
Mas o que tens não é nada e é do nada de onde vens
Que orgulho tens tu no teu rotineiro dia-a-dia?
Se tu não tens futuro de que serve tanta mania?
De que serve levantar a cabeça se nada à tua volta é teu?
De que serve arranjar desculpas se a desculpa já morreu?
Levanta-te da cadeira e segue o teu caminho
Se tu não o deres esse passo, ele não se vai dar sozinho.
Talvez lembrar o passado me tenha feito bem
Não o passado recente, o passado em que não era ninguém
Não era eu mesmo, nem sabia quem era
Quando ainda ficava contente por chegar a primavera
Quando ser escuro cedo ainda me estragava o dia
Quando saía das aulas em plena correria
Quando ainda não fazia o que queria
Mas talvez era a altura em que mais sorria
Reviver os irmãos que me acompanharam
Lembrar os momentos bons que passaram
Aprender a ouvir com quem antes falava
Encontrar quem eu era e o que me faltava
Ver o que fazia e no que me tornei
O que ontem sonhava mas é certo que não serei
Tudo aquilo que vivi e tudo o que errei
Mas nada de muito mau, eu sei eu sei
Ainda há tanto tempo, tanto pela frente
Aproveita agora enquanto a vontade está quente
Olha-te ao espelho e vê bem a tua sorte
Guia-te pelo amor que sempre te apontou o Norte
O amor que esta lá para ti e que te chama
Faz tudo isso por ti, faz isso por quem te ama
Pela grande mulher que sabes que tens ao teu lado
Que de uma forma inocente te deixou apaixonado
Pensa no futuro, no presente e no passado
Relembra-te só aquilo que merece ser lembrado
E sabes tão bem como eu, que ela o merece
Se fosses religioso dizia que Deus ouviu a tua prece
Tens alguém na tua vida que te dá algum sentido
Que te aperta forte a mão e que não te deixa ficar perdido
Pensa na mulher que amas e tens vontade de abraçar
Pensa se não lhe queres dar um motivo para se gabar
Pensa se não queres dar-lhe o maior orgulho do Mundo
Em voltares-te a erguer, voltar a sair do fundo
É mais fácil falar do que fazer
Mas não ganhas a maratona se não começares a correr
Correr, como nos velhos tempos
Onde corriam as tardes mas ficavam os momentos
Quando a vida não tinha nem noites nem mulheres
Tinha tardes a jogar e ainda tinham ‘quantos queres’
Tinham irmãos, que ainda hoje o são
Uns foram-se perdendo, outros sei que ficarão
Mais que uma família, mais que um pouco de tudo
Mais que dialogo mesmo quando ficas mudo
Quem te conhece aos anos, e aos dias que ainda passarão
Quem viveu contigo cada sonho e ilusão
Mas ilusão, pode ser realidade
Um misto de amor, com empenho e vontade
Talvez fosse disso, que tinha falta
Poder dizer que passei uma noite com a velha malta
E eu sei disso tudo, mas precisava de escrever
Porque se não pudesses mudar, do que serviria aprender?